Blog Comunicar Saúde
Saúde e doença na perspetiva das pessoas: implicações para a comunicação clínica
12 maio 2026, PATRÍCIA RODRIGUES
Quando falamos de saúde e doença, tendemos a pensar em diagnósticos, sintomas, exames e tratamentos. Mas será que as pessoas vivem estes conceitos da mesma forma que a Medicina os define? Este foi o mote para um pequeno exercício exploratório, dentro da disciplina de Sociologia da Saúde, onde pedi a quinze pessoas que respondessem a duas perguntas simples:
“O que é, para si, a saúde?”
“O que é, para si, a doença?”
Da análise das respostas surgiram quatro padrões, que descrevo de seguida. No final, procuro refletir sobre o que estes padrões nos podem ensinar sobre a comunicação com doentes, famílias e público — sobretudo sobre a necessidade de compreender a perspetiva única de cada indivíduo.
Índice
Não existe apenas uma saúde
Os quinze participantes interpretaram os conceitos de saúde e doença a partir de um ângulo próprio, moldado pelo contexto pessoal, experiências e exigências de vida.
- “Saúde é ter estabilidade, é conseguir manter tudo equilibrado, o corpo, a cabeça e a rotina lá em casa.”
- “Saúde é sentir-me bem e ter energia para trabalhar, fazer exercício e aproveitar o dia.”
- “Saúde é a base da minha felicidade.”
- “A doença é um desequilíbrio (físico ou mental), em que a pessoa se sente mais deprimida, tem medo de sair e de fazer as coisas de que gosta.”
É a partir das necessidades, vivências e expectativas de cada pessoa que surge a significação de saúde e doença. Este padrão está alinhado com a proposta de ideia de René Dubos, para quem “não há definição universal de saúde: cada um de nós quer fazer qualquer coisa da sua vida e necessita para isso de uma saúde que lhe é particular”.
Sublinho também que as respostas foram predominantemente experienciais e não técnicas, mesmo junto dos profissionais de saúde que integraram o grupo de inquiridos. Ou seja, a maioria das respostas, em vez de referirem-se a patologias ou processos fisiológicos, sublinham o viver, funcionar, trabalhar, pensar, agir ou cuidar da família. Desta forma, para a maioria das pessoas, saúde e doença são muito mais do que categorias biomédicas.
Isto ajuda-nos a perceber algo muito relevante para a comunicação clínica: muitas pessoas não avaliam a sua saúde apenas pela presença ou ausência de diagnóstico, mas sim pela possibilidade de continuarem a viver a sua vida e pela qualidade da sua experiência quotidiana. Por isso, quando o profissional fala, por exemplo, de controlo ou reversão da doença, a pessoa pode estar sobretudo preocupada com conseguir manter a sua rotina, o seu papel familiar, o trabalho ou a sua independência.
Saúde como algo bom, doença como algo mau
O segundo padrão prende-se com a valoração dada à saúde e à doença: a saúde foi sempre associada a algo positivo, enquanto a doença assumiu sempre uma conotação negativa.
- “Saúde é um bem essencial e precioso. Doença é um mal-estar geral.”
- “Saúde é estar bem. Doença é estar mal.”
- “Saúde é tudo, é a melhor coisa que se pode ter, é a base da vida. A doença é algo que nos limita e nos impede de trabalhar. Quem não tem saúde não tem nada.”
Alguns significados associados à saúde foram: bem essencial, equilíbrio, bem-estar, independência, autonomia, normalidade e capacidade para trabalhar e realizar tarefas. Em alguns casos, a saúde é mesmo apresentada como valor central na vida.
Por sua vez, significados atribuídos à doença incluem: dependência, incapacidade, disfunção, desequilíbrio, interrupção da normalidade e medo.
Isto significa também que as conversas sobre saúde e doença raramente são neutras para a pessoa. Quando o profissional partilha factos e dados objetivos, partindo de uma racionalidade científica, a pessoa pode estar a experienciar medo, perda ou incerteza, usando, neste caso, um modo de pensar mais emocional e contextual. Comunicar em saúde implica, por isso, abordar não apenas os riscos, sintomas e medidas terapêuticas, mas também explorar os significados emocionais e práticos que lhes estão associados.
Saúde como capacidade funcional
O terceiro padrão foi a visão da saúde como uma condição que permite (ou impede) a realização das atividades do dia a dia, sendo, por isso, a capacidade de “funcionar” de acordo com as exigências. Dito de outra forma, a saúde é um recurso (um instrumento) que possibilita alcançar um fim.
- “A saúde é quando uma pessoa consegue fazer as coisas do dia a dia sem dificuldade e sem dores.”
Neste caso, o participante está a usar uma abordagem prática. Está, no fundo, a questionar: Consigo trabalhar? Consigo cuidar da casa? Consigo sair? Consigo pensar com clareza? Consigo manter a minha independência? Se sim, tenho saúde.
Além disso, neste quadro de referência mais prático, a doença pode ser vista como uma ameaça aos diversos papéis sociais que a pessoa desempenha (familiares, laborais, comunitários, entre outros). Para muitos participantes, a saúde é o que permite funcionar dentro desses vários domínios e a doença o que o impede. Esta ideia aproxima-se da perspetiva sociológica de Talcott Parsons, que via a doença como uma condição que interfere com o cumprimento das funções sociais esperadas do indivíduo: “A doença é uma ameaça ao desempenho dos papéis sociais que os indivíduos foram socializados para ter”.
Colocando estas ideias na comunicação em saúde, a recuperação ou manutenção destes papéis sociais pode ser o parâmetro de avaliação da normalidade que as pessoas usam, e não tanto a melhoria nos marcadores bioquímicos ou nos sintomas, estes mais caros aos profissionais de saúde.
Saúde e doença são conceitos em evolução
Por último, ficou saliente o caráter dinâmico e impermanente atribuído à saúde e à doença. Quando vistas como uma experiência, um estado ou uma capacidade, ou até um bem, podem alterar-se: a experiência termina, o estado muda, a capacidade altera-se e o bem perde-se. Isto sugere que saúde e doença são entendidas não como categorias fixas, mas como processos ao longo do tempo, sujeitos a variações e transições.
- “Saúde é quando o corpo e a mente funcionam de forma adequada. Doença é quando o corpo ou a mente deixam de funcionar como deviam.”
- “Saúde é conseguir fazer as minhas coisas sozinha. A doença é quando deixo de conseguir e passo a depender dos outros.”
Além disso, a doença foi também associada à ideia de adaptação:
- “Doença é desconforto e adaptação.”
- “A doença não é só o que ele [o marido] tem. É o que isso traz para a vida toda: preocupação, cansaço, mudanças constantes.”
Esta dimensão dinâmica reflete-se também na mudança das necessidades de comunicação. Por exemplo, uma pessoa pode inicialmente procurar informação técnica e, mais tarde, precisar sobretudo de orientação prática, apoio emocional ou ajuda para lidar com mudanças familiares ou profissionais. Desta forma, comunicar bem exige reconhecer essa evolução contínua e adaptar-se a ela.
Qual é o impacto para a comunicação clínica?
Este exercício exploratório mostra que raramente as pessoas usam racionalidades científicas para definir a saúde e a doença. O seu modo de pensar é mais experiencial e subjetivo, sendo muito influenciado pelo contexto social e cultural (um tema que mereceria um outro artigo).
De facto, a comunicação centrada na pessoa torna evidente a importância de explorar a perspetiva da pessoa, na qual se incluem as crenças, preferências, preocupações, necessidades, ideias, expectativas do indivíduo. No fundo, a perspetiva da pessoa é a forma como ela interpreta e vivencia o campo da saúde/doença.
Quando removemos este ponto de vista do diálogo e nos centramos apenas nas questões biomédicas, podemos não conseguir atender ao que é mais importante para a pessoa. Como vimos, muitas vezes, aquilo que mais preocupa o indivíduo não é exatamente a doença em si, mas aquilo que ela significa:
- Vou perder autonomia?
- Vou conseguir trabalhar?
- Vou ter de alterar as rotinas familiares?
- Como vai ser o meu futuro?
- Vou sofrer?
- De que forma esta situação muda a minha ideia de mim mesmo(a)?
Ignorar esta dimensão psicológica e social é fragmentar a pessoa, é deixar do lado de fora do consultório uma parte essencial da sua existência e, por isso, também do sucesso do próprio cuidado.
Assim, quando um doente pergunta, por exemplo, se vai conseguir voltar a trabalhar, está a revelar a sua definição de saúde, muito diferente da definição clínica. Além disso, revela também as suas prioridades e necessidades, que não podem ser desvalorizadas e menos ainda ignoradas.
Esta dissonância entre a forma de pensar e de decidir do profissional e da pessoa estende-se a outras áreas, como às decisões terapêuticas. Se até há algum tempo as decisões eram centradas no saber do profissional, essa visão evoluiu para a necessidade de incluir os saberes e as preferências do indivíduo. Neste novo paradigma, torna-se evidente que explorar a perspetiva da pessoa, compreendê-la e negociar caminhos em conjunto exige competências de comunicação muito mais complexas do que uma decisão unilateral centrada apenas no saber técnico. A comunicação deixa, assim, de ser apenas transmissão de informação para passar a ser um processo de construção (ou negociação) de significados a partir de dois quadros de referência diferentes.
Conclusão
Este pequeno exercício exploratório mostra que saúde e doença não são apenas conceitos biomédicos, mas são também experiências vividas, carregadas de significados emocionais, sociais e funcionais. Para muitas pessoas, ter saúde não significa simplesmente ausência de diagnóstico, mas sim conseguir manter autonomia, relações, trabalho, identidade e projetos de vida.
Isto tem implicações profundas para a comunicação em saúde. Para comunicar bem é preciso mais do que avaliar a situação clínica e transmitir informação correta: é necessário compreender o que a saúde e ou doença representam para aquela pessoa concreta e reconhecer que, muitas vezes, o que está verdadeiramente em causa não é apenas o corpo, mas a continuidade e a estabilidade do quotidiano e do projeto de vida.
Quando percebemos que os quadros de referência do profissional (mais científicos) e da pessoa (mais experienciais) podem ser diferentes, damos um passo importante para comunicar melhor, compreender melhor as pessoas e, também, cuidar melhor.
O que distingue da racionalidade científica a racionalidade do senso comum, que sustenta as crenças com que habitualmente funcionamos no quotidiano, não é o facto de ela não ser racional, como frequentemente é acusada pelos cientistas, mas o facto de a sua racionalidade ser contextual.
— Luísa Ferreira da Silva
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