Blog Comunicar Saúde
Os cursos de saúde formam bons cientistas. Será que formam bons comunicadores?
2 abril 2026, PATRÍCIA RODRIGUES
A comunicação está no centro da prática em saúde. É através dela que se explicam diagnósticos, se negoceiam decisões e se constroem relações de confiança. Ainda assim, o lugar que ocupa na formação académica nem sempre reflete essa centralidade. Será que estamos a preparar os profissionais de saúde para comunicar com a mesma solidez com que os preparamos para dominar a ciência?
Índice
Assimetrias entre a formação e o exercício profissional
Se analisarmos os currículos académicos dos cursos de saúde, vemos que a maioria das disciplinas tem como objetivo construir o conhecimento científico e técnico. O domínio desses temas é o pilar central da formação superior de cada profissão, assim como a capacidade de analisar novas evidências de forma crítica.
Por sua vez, o desenvolvimento de competências humanas, como a comunicação com o doente/utente, não tem a mesma visibilidade na formação académica. Poder-se-á pensar que tal relevância não é necessária e que não compromete a prática. Contudo, grande parte do trabalho do profissional de saúde, particularmente quem trabalha em contextos clínicos ou comunitários, consiste precisamente em interagir com pessoas. Desta forma, tais competências não são acessórias — são estruturais.
Ao analisar o tronco comum do plano de estudos de cinco cursos da Universidade do Porto (Enfermagem, Ciências Farmacêuticas, Medicina, Medicina Dentária e Ciências da Nutrição) e um do Politécnico do Porto (Fisioterapia), encontrei três padrões no que concerne à formação em comunicação:
- A comunicação está presente, mas maioritariamente integrada em disciplinas com outras nomenclaturas (como é o exemplo dos cursos de Medicina e Enfermagem);
- A comunicação é abordada de forma breve ou pontual (como é o caso dos cursos de Ciências Farmacêuticas e de Fisioterapia);
- A comunicação tem uma disciplina dedicada, mas sem continuidade ao longo do restante percurso formativo (como no curso de Medicina Dentária e de Ciências da Nutrição).
Esta análise não pretende ser exaustiva, serve para ilustrar um padrão que merece reflexão: a comunicação está presente nos currículos, mas frequentemente de forma dispersa ou abreviada. Perante isto, podemos questionar se o espaço que a comunicação ocupa nos currículos está alinhado com a sua relevância na prática profissional. Dito de outra forma: a comunicação é central na profissão, mas parece ser lateral na formação.
Importa reconhecer duas limitações desta análise: por um lado, incide apenas sobre seis cursos; por outro, não inclui uma análise aprofundada de todos os conteúdos programáticos, podendo a comunicação estar presente, de forma pouco explícita, em disciplinas que não foram sinalizadas. Ainda assim, o padrão observado permite levantar a questão que está em título deste artigo.
A dúvida que se levanta
Naturalmente que os currículos na área da saúde resultam de escolhas exigentes, em que é necessário equilibrar conhecimento científico, competências técnicas e outras dimensões da prática. Além disso, essas escolhas também são condicionadas pelas limitações na carga horária. Não existem modelos perfeitos.
Contudo, vale a pena tentar perceber por que motivo a comunicação parece estar na sombra de alguns currículos académicos. Se os profissionais de saúde, particularmente os que interagem com doentes/utentes, passam uma parte tão significativa do seu tempo de trabalho a comunicar com os mesmos, o que leva à lateralização desta competência? De seguida exploro três explicações.
“A comunicação aprende-se na prática”
Não há dúvida de que a prática conduz à maestria. No entanto, o exercício profissional por si só não ensina as técnicas, os fundamentos teóricos, as variáveis a ter em conta, as subtilezas da comunicação nos vários contextos da profissão. Além disso, nem sempre existe feedback qualificado à comunicação do profissional.
Por outro lado, deixar a comunicação ao método do “faz como vires fazer” pode não conduzir a boas práticas, particularmente quando os modelos observados não têm essas competências bem desenvolvidas, existindo o risco de se perpetuar hábitos menos eficazes ou desejáveis.
Adicionalmente, cada profissional fica entregue à sua sorte: se estiver rodeado de bons exemplos, estará no bom caminho; se estiver rodeado de exemplos pouco positivos, terá menos oportunidades de evolução. Isto é injusto para o próprio profissional e para os utentes com quem este se cruza.
Ou seja, mesmo havendo contacto prévio na formação académica, não existem garantias de qualidade na aprendizagem ao longo do exercício profissional. Esta tende a ser pouco estruturada, inconsistente e desigual, não conduzindo, por isso, a resultados de elevada qualidade.
“Comunicar é natural”
Outra razão que pode contribuir para a menor valorização da comunicação é a ideia de que, sendo uma competência natural, não precisa de ser trabalhada.
É verdade que todos comunicamos. No entanto, para comunicar no contexto da saúde são necessárias competências específicas (adaptar a informação, gerir emoções, lidar com incerteza, conciliar decisões, etc.) que não nascem connosco — temos de as aprender e praticar. Adicionalmente, alguém pode ser bom, por exemplo, a fazer apresentações em público para pares e ter mais dificuldade no contexto clínico, na interação com doentes e familiares.
Assim, não podemos assumir que, por ser uma competência natural, todos os profissionais de saúde comunicam de forma eficaz.
“A comunicação é invisível”
Conhece a frase: “o peixe não sabe que a água existe”? Esta metáfora sugere que aquilo que é omnipresente pode tornar-se invisível. A comunicação parece sofrer do mesmo efeito: na prática profissional, está presente em todos os momentos do cuidado, mas muitas vezes só se torna visível quando falha, assim como a água só se torna evidente para o peixe quando este é retirado dela. Perante esta “invisibilidade”, torna-se difícil reconhecer as próprias limitações, pois o profissional não sabe que não sabe. Desta forma, melhoria é lenta ou improvável.
Esta “invisibilidade” pode até ser reforçada pela forma como a comunicação é integrada nos currículos. Como vimos, a comunicação está presente de forma dispersa e raramente intitulando a disciplina. Neste caso, existe o risco de perda de continuidade e de não se construírem bases conceptuais sólidas. Se, por um lado, abordar a comunicação em vários momentos pode reforçar a aprendizagem e possibilitar a adaptação a diferentes contextos e especialidades, por outro, é fundamental que haja um fio condutor explícito, caso contrário, os conteúdos podem parecer isolados, sem progressão nem articulação entre si. Como consequência, os estudantes podem não desenvolver uma visão integrada da competência. Ou seja, esta fragmentação do tema pode levar a que a comunicação não seja reconhecida como comum domínio de saber, mantendo-se, assim, invisível.
Conclusão
A comunicação está presente na formação superior em saúde, no entanto, surge frequentemente dentro de outras disciplinas. Quando o ensino é fragmentado ou deixado para a prática profissional, o resultado pode ser pouco consistente. Além disso, se a comunicação é vista como competência natural ou nem é vista como fundamental, torna-se difícil desenvolver habilidades sólidas. Desta forma, é legítimo questionar o tipo de comunicadores que o modelo atual tende a formar.
No lado positivo, a comunicação começa a ganhar visibilidade. Por um lado, os sistemas de qualidade estão a dar cada vez mais atenção às experiências e resultados relatados pelos doentes e, por outro, a produção científica tem mostrado oportunidades de melhoria neste campo. Além disso, têm sido publicados consensos sobre os planos curriculares da competência de comunicação em cursos de saúde, apontando para mudanças no futuro.
Assim, a formação em saúde prepara profissionais com forte domínio científico, mas nem sempre assegura, ao mesmo nível e de forma consistente, o desenvolvimento de competências de comunicação. Sendo a comunicação central na prática, talvez mereça um lugar igualmente central na formação.
Nothing in healthcare is more important than good communication.
— Anthony Suchman
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