Blog Comunicar Saúde
Onde mora a empatia: no profissional ou na instituição?
1 dezembro 2025, PATRÍCIA RODRIGUES
Em muitos dos meus artigos abordo as competências de comunicação dos profissionais de saúde. Mas, para compreender verdadeiramente a interação entre profissionais e doentes, é também importante olhar para o ambiente onde esta ocorre e perceber até que ponto o mesmo facilita ou não as práticas comunicativas que sabemos beneficiarem os resultados em saúde.
Neste artigo trago para o primeiro plano a influência do contexto de trabalho para a prática da empatia. Será a empatia uma característica individual dos profissionais de saúde, ou têm as instituições um papel determinante na sua expressão?
Índice
A empatia é fundamental para o cuidado centrado na pessoa
O cuidado centrado na pessoa valoriza as necessidades e preferências de cada indivíduo. Para isso é necessário solicitar, valorizar e integrar a perspetiva do doente — o que exige empatia.
De acordo com Kerasidou e Horn, a empatia é “a capacidade de identificar, compreender e partilhar os sentimentos e a perspetiva de outra pessoa, mantendo ao mesmo tempo a distinção entre si e o outro”. Esta capacidade de entender a pessoa no seu todo e de acolher a sua singularidade está na base de uma abordagem verdadeiramente centrada no doente.
Estão amplamente descritos os benefícios da empatia, tanto para doentes como para profissionais. Do lado dos doentes, destacam-se melhores resultados clínicos, menos ansiedade e preocupação, maior satisfação e maior adesão à terapêutica. Por sua vez, os profissionais reportam menos stress e burnout, mais resiliência e mais satisfação.
Embora muitas vezes seja vista como uma característica pessoal, a empatia não é um traço fixo. É uma competência relacional que se desenvolve e se expressa de forma diferente consoante o contexto e as condições de trabalho.
SAIBA MAIS NO ARTIGO
O papel da empatia na comunicação em saúde
A empatia pode diminuir ao longo do percurso profissional
Apesar da sua importância, vários estudos mostram que a empatia pode diminuir ao longo da formação académica e da prática clínica. Por exemplo, trabalhos feitos com estudantes de medicina mostram que a empatia dos alunos diminui ao longo do percurso académico. Entre profissionais de saúde, observa-se igualmente uma redução ao longo dos anos de exercício clínico.
Sendo um conceito multidimensional, vários fatores podem dificultar a prática empática: fatores individuais, fatores culturais e fatores organizacionais (os últimos estão descritos na próxima secção). Como fatores individuais, podemos referir traços de personalidade que condicionam a capacidade do profissional de se colocar no lugar do outro. Como fatores culturais, temos o exemplo das diferenças de língua, de normas e de tradições. Outro exemplo de elementos culturais, este já no contexto profissional, é o modelo biomédico, que concentra a sua abordagem na dimensão física da saúde, desvalorizando os outros domínios do indivíduo. Para Razi e colegas “o mero rigor científico na área médica tem negligenciado os aspetos humanísticos da multidimensionalidade de uma doença“.
Existem fatores organizacionais que limitam a expressão da empatia nos cuidados de saúde
As condições para expressar empatia nem sempre estão presentes. Vários autores sistematizaram os fatores relacionados com as instituições de saúde que podem levar a uma prática menos empática, onde se incluem:
- Cultura organizacional que valoriza mais a produtividade do que o cuidado centrado na pessoa;
- Falta de tempo para estar com os doentes;
- Falta de pessoal e aumento da carga de trabalho;
- Fatiga e exaustão emocional dos profissionais;
- Pressão para alcançar resultados;
- Ambiente de trabalho com elevados níveis de stress;
- Tarefas que distanciam os profissionais dos doentes (como registos eletrónicos).
Estes fatores mostram que, mesmo quando existe vontade individual, a empatia só pode ser plenamente expressa quando as condições de trabalho a tornam possível.
Instituições de saúde empáticas são ecossistemas onde a empatia é possível
Tal como uma semente precisa das condições certas para germinar (solo, temperatura, luz, água), também os profissionais precisam de uma cultura organizacional que lhes permita expressar empatia. Assim, se queremos promover a empatia nos cuidados de saúde, temos de olhar para o ecossistema como um todo — e não apenas para o indivíduo.
Neste sentido, surge o conceito de sistemas ou instituições de saúde empáticas como “sistemas e instituições estruturados e organizados de forma a criar condições que facilitem as interações empáticas, de forma não arbitrária, em todo o serviço”.
Alguns exemplos de linhas orientadores que poderão conduzir a instituições de saúde empáticas incluem:
- Rever os modelos de avaliação do desempenho, que continuam muito centrados em métricas quantitativas e pouco sensíveis a aspetos qualitativos do cuidado;
- Desenvolver sistemas de informação que deem mais tempo aos profissionais, em vez de acrescentarem tarefas redundantes;
- Cuidar dos profissionais com empatia, reconhecendo a sua humanidade e necessidades. Cuidar do bem-estar dos profissionais assegura a sua capacidade para cuidar dos outros.
O papel das ações formativas
Além de criar condições de trabalho favoráveis à empatia, as ações educativas junto dos profissionais são também importantes e, além disso, são eficazes. Uma análise sistemática, publicada em 2023, olhou para as iniciativas que visaram aumentar a empatia nos profissionais de saúde. Incluiu 128 estudos com diferentes metodologias, tais como cursos, workshops, simulações, visualização de vídeos, entre outros. Os autores concluíram que 80% das intervenções foram eficazes no aumento da empatia. Se olharmos apenas para os estudos randomizados e controlados, as intervenções aumentaram a empatia em 64% dos casos (18 de 28 dos estudos).
Esta evidência reforça a ideia de que a empatia não é apenas um traço de personalidade, mas uma competência que pode ser cultivada ao longo da carreira. Além disso, é importante também referir que estes esforços educativos não se devem limitar ao percurso académico, devem repetir-se ao longo do percurso profissional.
Conclusão
As instituições e as estruturas do sistema de saúde influenciam significativamente a forma como a empatia é expressa, praticada e incorporada no dia a dia. O conceito de instituições de saúde empáticas lembra-nos que não basta desenvolver ações orientadas para os profissionais: é necessário atuar nos fatores estruturais e organizacionais que moldam a expressão da empatia. Assim, para que a empatia floresça, torna-se urgente desenhar todo o ecossistema dos cuidados de saúde com base na experiência e nas necessidades das pessoas — dos doentes e dos profissionais.
Even if empathy is understood as a virtue rather than a skill, if the environment in which healthcare practitioners operate is not supportive of the expression of such a virtue, it is less likely that individuals operating in this environment will have the opportunity to develop it.
— Kerasidou A, et al, 2020
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