Blog Comunicar Saúde
O leitor não é o problema: o que dificulta a compreensão da informação de saúde?
20 janeiro 2026, PATRÍCIA RODRIGUES
Quem escreve conteúdos de saúde para o público tem uma boa intenção: informar e capacitar os leitores. No entanto, entre um texto construído com essa intenção e a compreensão efetiva por parte de quem lê existe um caminho cheio de obstáculos.
Quando os conteúdos não são compreendidos, a explicação tende a recair sobre o leitor — a sua escolaridade, literacia em saúde ou interesse pelo tema. No entanto, esta explicação é incompleta e, muitas vezes, injusta, pois a dificuldade de compreensão depende, em grande medida, das características da própria informação, nomeadamente de como é escrita, organizada e apresentada.
Neste artigo, apresento cinco características do texto e um aspeto contextual que contribuem para a incompreensibilidade da informação de saúde. Estes aspetos são particularmente relevantes para profissionais que escrevem materiais educativos, textos para websites ou outros conteúdos informativos para o público.
Índice
1. As palavras difíceis
O primeiro obstáculo prende-se às palavras que o escritor escolhe colocar no texto. Quando se trata de palavras difíceis no contexto da saúde, desde logo pensamos nos termos técnicos — o jargão. Em saúde, este léxico não se limita a termos óbvios como hipertensão, metástase ou insuficiência renal. Inclui também palavras e expressões que, embora pareçam comuns aos profissionais, não fazem parte do vocabulário habitual do público.
Por exemplo, num folheto sobre cessação tabágica para pessoas com diabetes, lê-se:
“Fumar é uma das principais causas evitáveis de doenças crónicas, perda de qualidade de vida e mortalidade prematura. Se é diabético e fuma, triplica a probabilidade de vir a morrer de uma doença cardíaca.”
Se lhe pedissem para identificar o jargão desta frase, o que apontaria? Talvez indicasse mortalidade prematura, doenças crónicas e doença cardíaca. Mas causas evitáveis e qualidade de vida também são conceitos da área da saúde. Usá-los sem qualquer explicação parte do pressuposto de que serão bem entendidos pelo leitor, o que nem sempre acontece.
Outros exemplos de expressões que são frequentemente usadas sem explicação são fatores de risco, adesão ao tratamento ou intervenção precoce. Para quem escreve, são claras e económicas. Para quem lê, podem ser vagas ou mesmo incompreensíveis.
2. Mais palavras difíceis
Além dos termos técnicos, existem palavras que, não sendo jargão, não fazem parte do vocabulário diário da maioria das pessoas e, por isso, poderão ser mal entendidas.
No mesmo folheto, sobre o que causa medo de parar de fumar, lê-se:
“Maior apetência pelo consumo de alimentos ricos em açúcares e gorduras”.
Apetência é uma palavra que usamos pouco no dia a dia e que significa desejo, vontade. Destes dois sinónimos, vontade é provavelmente o mais comum.
Vamos concretizar: se estivesse a falar com um amigo, qual das três frases abaixo diria?
— Hoje estou com desejo de comer gelado.
— Hoje estou com apetência para comer gelado.
— Hoje estou com vontade de comer gelado.
A última soa-lhe mais natural, certo?
Lembre-se de que quanto mais palavras difíceis, técnicas ou pouco usuais um texto contiver, maior será o esforço exigido ao leitor para o compreender.
3. As abstrações
Outro aspeto que dificulta a compreensão é o elevado grau de abstração da informação de saúde. Voltando ao exemplo anterior, mortalidade prematura, doenças crónicas e doença cardíaca são conceitos abstratos, ou seja, não se referem a uma realidade concreta e observável (como objetos físicos), mas a categorias e ideias.
As abstrações têm uma função importante: permitem sistematizar a informação, eliminar detalhes e concentrar o pensamento numa ideia mais geral. Mas essas vantagens são também as suas desvantagens, pois significam que compreender o conceito exigirá maior esforço cognitivo e algum conhecimento de base.
Além disso, as abstrações, muitas vezes, têm pouca ligação com a experiência concreta das pessoas. Expressões como estilo de vida saudável são usadas com frequência, mas raramente são concretizadas. O leitor fica a saber que é algo importante, mas não fica a saber exatamente o que fazer no seu dia a dia (a não ser que tenha conhecimento sobre o assunto, o que, novamente, pode ser um pressuposto errado).
Neste sentido, o uso de abstrações pode até criar uma ilusão de compreensão. O escritor sente que foi claro e o leitor pode pensar que compreendeu, mas, na verdade, o último não obteve informação “utilizável” e o primeiro não conseguiu passar a sua mensagem. Em contextos de saúde, isto é particularmente problemático, porque a compreensão deve permitir decisões informadas e comportamentos concretos.
4. A estrutura das frases e do texto
A dificuldade de entender informação de saúde não está apenas nas palavras; está também nas frases e na estrutura do texto. Muitos conteúdos apresentam uma complexidade estrutural elevada, mesmo quando o vocabulário parece acessível.
Frases longas, uso frequente da voz passiva, várias ideias condensadas numa única frase ou enumerações extensas são exemplos comuns. Vemos alguns desses obstáculos no seguinte excerto de um artigo sobre asma:
“Para além das medidas farmacológicas, que incluem o cumprimento da terapêutica de manutenção e outras adicionais, também medidas não farmacológicas são muito importantes na prevenção da agudização ou do surgimento de sintomas respiratórios.”
Este tipo de construção exige mais esforço de leitura e torna mais difícil perceber o que está a ser dito.
Outro problema recorrente, pensando agora na macroestrutura do texto, é a ausência de uma hierarquia clara da informação. Textos que apresentam informação em blocos contínuos, sem títulos, subtítulos ou sinalização do que é essencial, deixam ao leitor a difícil tarefa de navegar pelo texto sem um mapa e ainda discernir o que é mais (e menos) importante.
5. A falta de foco
O último aspeto sobre o texto é algo frequentemente subestimado: a falta de foco. Na tentativa de ser rigoroso e completo, quem escreve conteúdos de saúde acaba, muitas vezes, por incluir ora informação a mais, ora informação pouco relevante para o leitor.
Detalhes excessivos podem ser úteis do ponto de vista técnico, mas sobrecarregam quem lê. Por isso, em vez de esclarecerem o leitor, dificultam a compreensão do conjunto da informação.
Este problema agrava‑se quando não existe uma mensagem central clara. Sem uma ideia‑chave que una o texto — um fio condutor— o leitor perde‑se e pode terminar da leitura a pensar: “Afinal, qual é o ponto principal?” ou “Afinal, o que é que eu posso fazer?”.
Em comunicação em saúde, mais informação não significa necessariamente melhor informação. É caso para dizer que, por vezes, menos é mais.
6. O difícil ecossistema informativo
Navegar pela informação de saúde tornou-se, para o público, significativamente mais difícil nos últimos anos. As pessoas já não contactam com a informação num único canal nem num único momento. Antes, procuram respostas em motores de busca, na inteligência artificial, nas redes sociais e, claro está, nas consultas com profissionais de saúde. Adicionalmente, além da informação que procuram ativamente, também recebem informação passivamente.
Esta diversidade de fontes expõe o público a informação heterogénea, por vezes inconsistente ou contraditória. Para quem não tem formação em saúde, torna-se difícil perceber quais são as fontes fiáveis. Além disso, a construção do conhecimento fica comprometida porque, a qualquer momento, o leitor pode encontrar informação que contradiz algo que leu/ouviu antes.
A própria natureza do conhecimento científico contribui para esta dificuldade. A evidência em saúde evolui continuamente; novos estudos são publicados todos os dias e as recomendações de ontem são hoje atualizadas. O problema é que toda a informação fica disponível online, contribuindo para o oceano informativo no qual as pessoas têm de navegar (sem colete salva-vidas).
Conclusão
A dificuldade em compreender informação de saúde é frequentemente atribuída aos leitores. No entanto, como vimos ao longo deste artigo, tal pode acontecer devido às características dos textos. Palavras difíceis, conceitos abstratos, estruturas complexas e falta de foco são obstáculos que, muitas vezes, os leitores encontram. Além disso, têm ainda de navegar num ecossistema informativo saturado e exigente.
Para quem escreve conteúdos de saúde para o público, reconhecer estes obstáculos é o primeiro passo para os ultrapassar. Assim, escrever de forma clara não é retirar rigor científico: é organizar, selecionar e apresentar o conhecimento de forma ajustada às necessidades e interesses dos leitores. Desta forma será possível passar da transmissão da informação à verdadeira comunicação.
Cear communication should be a high priority for health care professionals if we are to succeed in ensuring full comprehension of health information and improving health quality.
— Mandana Vahabi
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